O Ensino de Engenharia no Reino Unido

Desde que retornei do Reino Unido, muitas pessoas me perguntam como foi estudar um ano na terra da Rainha, se senti alguma dificuldade e quais as principais diferenças que eu percebi. Vou tentar escrever um pouco sobre as principais diferenças que eu senti, mas vou logo adiantando: Não senti dificuldade nenhuma!

Calma, vou explicar. Talvez tenha sentido um pouco de dificuldade com o inglês britânico no início, mas tudo que eu não entendia na aula conseguia encontrar nos livros e, com mais calma (e sem sotaque, apenas letras haha), entendia o assunto todo. Sei que não sou um aluno brilhante, mas o ensino de engenharia no Brasil é muito mais puxado e aprofundado do que no Reino Unido, levando os estudantes muitas vezes a esquecerem que estão num curso de engenharia e achando que estão num curso de licenciatura em matemática, por isso, muitos professores e classmates ficavam espantados com a nossa base matemática, que era muito boa. O curso de engenharia no Brasil também é mais abrangente, por exemplo, um estudante de engenharia mecânica tem disciplinas obrigatórias sobre física elétrica e ótica assim como um estudante de engenharia elétrica tem disciplinas de mecânica. No Reino Unido, cada departamento tem apenas as disciplinas relacionadas a ele, apesar do aluno poder encaixar disciplinas de outros departamentos (um aluno de economia pode assistir aulas de fotografia, por exemplo, mas não é obrigatório).

Mas no UK, meu amigo, a grande diferença que eu percebi foi: Levar a educação muito mais a sério que o Brasil. Um país como o nosso, onde o professor universitário as vezes precisa ter 3 empregos (deixando-o tão sobrecarregado que precisava faltar aula com frequência) e que não investe em infra-estrutura básica nas escolas públicas e universidades, não está levando a educação a sério. A estrutura de todas as universidades que cheguei a conhecer no UK era de primeiríssimo mundo. Salas realmente projetadas para serem salas de aula, com projetor, computador e tudo que era preciso; laboratórios equipados com máquinas modernas e computadores disponíveis para todos os alunos, biblioteca com um acervo enorme de livros e até DVDs, que funcionava no final de semana e até tarde (24h durante época de exames), elevadores, rampas para cadeirantes… Enfim, em questão de estrutura, as universidades britânicas dão de 10×0 nas brasileiras (as universidades alemãs dão de 7×1).

A esquerda, biblioteca da universidade onde estudei (Birmingham City University) e a direita, sala comum.
A esquerda, biblioteca da universidade onde estudei (Birmingham City University) e a direita, sala comum.

Outra diferença é que na terra da Rainha o aluno passa menos tempo em sala de aula e mais tempo estudando sozinho, com menos aulas expositivas conduzidas pelo professor. Isso fica evidente na imagem abaixo, mostrando que é esperado do aluno 36% de estudo em sala de aula e 64% de estudo sozinho. Porém, o professor sempre estará a disposição para tirar dúvidas, seja pessoalmente ou pelo e-mail interno da universidade.

Nesse gráfico fica claro quanto tempo o aluno passa estudando em casa e dentro de sala de aula.
Nesse gráfico fica claro quanto tempo o aluno passa estudando em casa e dentro de sala de aula.

No curso de engenharia, as aulas são divididas em tutorial e lectures. Durante a lecture, o professor dava uma aula expositiva para toda a turma sobre um determinado assunto. Já no tutorial, a sala se dividia em grupos e cada grupo ficava com um professor, onde eram realizados aulas práticas no laboratório ou resolução de exercícios.

Esse é um dos laboratórios onde tinhamos aulas práticas de mecânica. Equipamentos muito mais modernos do que os que tenho no Brasil
Esse é um dos laboratórios onde tinhamos aulas práticas de mecânica. Equipamentos muito mais modernos do que os que tenho no Brasil

Avaliações: As avaliações são realizadas através de practical assessments, onde tinhamos cerca de 1 mês para fazer. Esses trabalhos requeriam coleta de dados, analise teórica, prática e discussões sobre os resultados. Na maioria das disciplinas fiz 2 desses trabalhos e sempre recebia um feedback do professor por e-mail, com comentários e justificando a nota. No final do ano letivo, também tinhamos uma prova escrita, com todo o assunto visto durante o ano. As questões eram relativamente fáceis, sem casca de banana, e acompanhava uma ficha com fórmulas, deixando claro que o objetivo não é fazer com que o aluno decore fórmulas, mas saiba como aplicá-las.
Ficar na média (40%) é fácil, até pessoas da minha universidade que não estudaram muito conseguiram. Porém, ficar com o conceito first class (acima dos 70%) já é um mais difícil mas não impossivél. Uma dica pros que vão estudar no Reino Unido é tentar ultrapassar os 60% (classificação 2.1) que é o nível minimo exigido por empresas.

Concluindo, estudar engenharia no Brasil é bastante difícil devido à falta estrutura, o conteúdo é mais puxado e faltam aulas práticas. Já no UK, o curso é mais leve e focado na sua área, você precisa apenas se acostumar com a língua e com a ideia de estudar sozinho.

Gabriel Cysneiros

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