Doutorado, pesquisa, inovação e empreendedorismo no UK

Embora grande parte dos bolsistas do CsF Reino Unido seja para cursos de graduação, tem muita gente que se aventura na terra da Rainha para fazer uma pós. Os procedimentos são diferentes e o aprendizado também, é claro; mas temos todos os mesmos objetivos: ampliar nossos horizontes acadêmicos, profissionais e pessoais.

Recentemente, através do nosso grupo alumni no facebook, o Raphael Kling David entrou em contato comigo para pensar numa maneira de compartilhar sua experiência. Ele é bolsista de doutorado pleno na Newcastle University desde o ano passado. Sua pesquisa é na área de engenharia mecânica e de sistemas e ele está inclusive começando a sua própria empresa!

Claro que o meu lado jornalista falou mais alto quando o Raphael me disse que queria incentivar outras pessoas a empreenderem também. A partir disso, trocamos alguns e-mails e o resultado do nosso bate-papo você confere abaixo. Inauguramos, assim, o primeiro relato de um Embaixador do Seu Reinado na pós-graduação! 😉

THZ_railnewcastle2015 - 83

Qual a sua formação prévia? Qual a sua trajetória?

Após minha graduação em Comunicação Social, fui trabalhar na parte de marketing de um negócio familiar na área de ferrovias. Durante esse período, trabalhei em muitos projetos diferentes, desenvolvendo habilidades em controle de custos e um pouco de programação.

Depois de 4 anos, fui fazer mestrado em engenharia de transportes, analisando as diferenças competitivas entre os sistemas rodoviário e ferroviário. Para isso, desenvolvi um software para auxílio de tomada de decisão com base nos custos de transportes.

Após o mestrado, fui pra Espanha e comecei um segundo mestrado em psicologia aplicada, no qual queria desenvolver um novo software educacional. Porém, por compromissos profissionais, acabei não terminando e voltei ao Brasil para desenvolver um grande projeto ferroviário. O clima de eleições acabou atrasando o projeto e eu decidi retornar à Europa para fazer o meu doutorado.

E por que decidiu fazer PhD no UK?

A Inglaterra sempre foi uma referência no transporte ferroviário. E eu vim exatamente para a cidade onde nasceu o pai da ferrovia, George Stephenson, há mais de 200 anos (e no mesmo dia do meu aniversário!). A primeira ferrovia do mundo está a poucas milhas da minha casa.

Além da importância histórica, a Inglaterra é referência mundial em projetos de tecnologia e, por conta da língua, muitas vezes assume uma posição de líder natural de vários projetos europeus. O apoio a startups também é um grande diferencial. Para não falar na música!

No que consiste a sua pesquisa aí no UK?

Meu projeto de pesquisa é desenvolver um software que permita modelar terminais ferroviários com base em critérios de diferentes tomadores de decisão. Também está previsto que o sistema gere automaticamente desenhos desses terminais, com base em algoritmos genéticos, permitindo uma melhor tomada de decisão quanto ao design e aos investimentos.

Como a sua pesquisa te motivou a abrir a sua empresa?

Uma parte da minha pesquisa estava relacionada a entender os fluxos ferroviários futuros com base nas tendências de mercado para poder desenhar os terminais mais adequadamente. Nessa fase, comecei a analisar que tipo de veículos poderiam ser desenvolvidos para maximizar o transporte ferroviário.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde o transporte de container é majoritariamente feito com double stack (dois containers empilhados em um vagão), na Europa e no Brasil a altura dos túneis só permite o transporte de um container por vez. Comecei a pensar que, se não era possível transportar dois, talvez fosse possível transportar um e meio.

3lnotrem (2)

Dessa ideia de transportar meio container, nasceu a ideia de desenvolver um container de baixa altura. Daí surgiu uma nova dificuldade, pois as portas convencionais estão localizadas nas extremidades. Reduzindo a altura pra cerca de 1 metro, não seria possível entrar no container com a empilhadeira; minha opção então foi colocar várias portas nas laterais. Com isso, eu criei diferentes compartimentos, o que permite o transporte de cargas diferentes em um mesmo container de uma maneira simplificada.

Um dos maiores problemas logísticos é o transporte incompleto (less than container), ou seja, se você precisar enviar 4 pallets, você necessita de um container inteiro. Com a minha ideia, diferentes transportadores usam o mesmo container. Para cargas de alto valor agregado, uma das cargas que identifiquei na minha pesquisa como prioritária nas próximas décadas, seria uma solução perfeita. Para isso, também comecei a desenvolver unidades de controle para transforma-lo num container inteligente, com monitoramento de temperatura, umidade, câmeras nas portas, geolocalização em tempo real…

Acredito que tudo isso poderá não só capacitar a ferrovia a concorrer num mercado em franco desenvolvimento (no qual, atualmente, ela não tem presença) como também reduzir os custos para os transportadores, as emissões e o tráfego.

Você conseguiu algum financiamento ou apoio para abrir a sua empresa? Se sim, pode explicar melhor sobre isso?

Logo que comecei a pensar no conceito, solicitei uma patente do sistema e passei a analisar as oportunidades para startups nessa área. Em menos de três meses da abertura, conseguimos um primeiro financiamento de uma aceleradora (Soul Fi round A) para o desenvolvimento do plano de negócios. Estamos preparando uma segunda proposta (round B) para o desenvolvimento do protótipo. Além disso, estamos analisando outras oportunidades de financiamento pela InnovateUK e H2020.

Você comentou que sua equipe foi convidada para participar da Hello Tomorrow. Como foi a experiência no evento? 

Apesar de estarmos num estágio bem inicial, fomos selecionados entre mais de 3000 projetos para nos apresentarmos em Paris. Foi uma experiência fantástica ver projetos de tecnologia aplicados à resolução de problemas reais. Tivemos contato com desenvolvedores e investidores fantásticos.

Pela minha experiência, eu sugiro a todo estudante que analise sempre as oportunidades de financiamento, principalmente para projetos de tecnologia. Muitas vezes, nós acabamos seguindo muito pela vida acadêmica, com foco apenas em publicações, e nossas pesquisas acabam sendo perdidas ou até aproveitadas por outras empresas. Existem muitos mecanismos de financiamento que podem ser aproveitados para desenvolvermos nossas ideias.

Valeu pelo bate-papo e por compartilhar a sua experiência, Raphael! Aproveite seu intercâmbio em Newcastle por nós! 😉

Amanda Tavares

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s