Cultura Profissional Britânica

Company-CultureTenha o intercambista interesse em realizar estágio remunerado no UK ou não, entender um pouco das práticas profissionais e da cultura de trabalho britânica é fundamental para seu período no país. Existem livros unicamente dedicados a como comportar-se em ambientes de trabalho internacionais (vide o completíssimo Kiss, Bow, or Shake Hands) dado a complexidade do tema, e uma compreensão do mesmo pode ajudá-lo desde entender mais acerca da cultura geral do país, até a realizar atividades burocráticas na Universidade de destino ou em outros ambientes profissionais. As dicas e informações abaixo são frutos das experiências pessoais combinadas de estudos em Londres, e de trabalho como estagiário em uma fabricante de válvulas localizada em Bristol, UK.

Fator cultural: British Politeness.

Não é à toa que os bons modos britânicos (politeness) são reconhecidos mundialmente. O UK realmente é um país de cultura politicamente correta, e comunicação delicada. Por esse motivo, quaisquer piadas ou comentários que possam ter uma centelha de mal gosto deve sempre ser evitados, mesmo que os mesmos dizeres fossem aceitos em um almoço de trabalho no Brasil, por exemplo. Além disso, tome cuidado para ler nas entrelinhas de mensagens delicadas. Um pedido como “se você tiver tempo, revise o capítulo 4 do relatório” de um superior, quer dizer “reescreva o capítulo 4 do relatório”, para leigos.

Tenha cuidado com seus próprios hábitos em ambientes profissionais: O brasileiro não costuma ser particularmente delicado com pedidos, porém faz muitos rodeios em reuniões e conversas profissionais. Pratique ser mais direto, ao por exemplo apresentar argumentos e resultados de trabalhos acadêmicos e de negócios. E claro, não se atrase para compromissos! O atraso culturalmente aceito no Brasil não é de maneira alguma bem visto lá fora.

Produtividade

Quem nunca ouviu aquela velha história do contraste Brasil-exterior, de que o estrangeiro é sempre mais produtivo, que quando está no trabalho “trabalha mesmo”, e que o brasileiro faz rodeios e intervalos de café a toda hora? Pois é, eu mesmo já ouvi várias vezes. E admito que em alguns ambientes isso ocorre, particularmente como é o caso em algumas empresas estatais ou privadas de cultura de trabalho improdutivo. Porém, pela minha experiência na engenharia posso afirmar que o Brasil é na realidade muito próximo em termos de rotina de trabalho de países como o Reino Unido. E isso é bom, afinal, não há nada como uma pausa para o café para fazer o cérebro engrenar e motivar-nos durante o dia. E quando a pausa para o café é na verdade uma pausa para um bom English Breakfast com leite, não tem preço. Aliás, no tema de chás, acostume-se com a idéia de ver pessoas de todas os níveis hierárquicos trabalhando na companhia de seus cuppas.

Férias

Férias são um grande plus na comparação do ambiente de trabalho britânico com o brasileiro. Ao passo de que o Brasil possui mais feriados durante o ano, no UK, por outro lado, dias de férias remuneradas são mais facilmente acessíveis para o funcionário. Cabe a ele decidir quando tomá-las, muitas vezes sem a necessidade de tirar pelo menos 5 dias, como no Brasil, ou ter de avisar com muita antecedência, muitas vezes podendo inclusive tirar dias de férias não-remuneradas livremente após os dias de descanso remunerado anuais se extinguirem.

Diferenças nos estágios e trainees.

Os internships (estágios) e graduate jobs (trainees) são dados de forma distinta do Brasil. Como em outros países europeus, o estudante abdica de estudar durante seu estágio, seja pelo período de um verão (3-4 meses) ou por um período contínuo de 6 ou 12 meses. Por esse motivo, portanto, o estagiário trabalha em regime integral – o que também é diferente do Brasil, pois geralmente é de 35 a 37 horas semanais, tendo por exemplo a tarde da sexta-feira sem expediente. Portanto, uma diferença inicial é que o estagiário, se comprometendo integralmente ao trabalho de estágio, possui uma maior liberdade quanto a escolher que projeto desenvolverá na empresa, do que geralmente teria no Brasil. Além disso, as aplicações para os programas de internship ou graduate ocorrem no ano interior ao início das atividades, como previamente descrito em detalhes no post sobre dicas na busca do estágio.

Diplomas e vocações profissionais

No UK, contrário ao Brasil, o diploma não possui um papel tão importante na atuação do profissional. É comum que alguém que haja estudado uma disciplina como artes na Universidade venha a trabalhar com marketing, ou que alguém formado em engenharia siga carreira na gestão de lojas de roupas, por exemplo. Isso está relacionado à curta duração e carga horária dos cursos universitários, em sua maioria de três anos. Muitas vezes o profissional acaba por terminar sua formação, no sentido de compreender e dominar as ferramentas para seu trabalho, fora da Universidade, no ambiente de trabalho.

Diferente do Brasil, no UK alguém não se intitularia engenheiro, por exemplo, somente tendo o diploma e não estando trabalhando na área. Outro efeito dessa diferença entre os países é que é mais comum para britânicos encontrarem empregos de graduates abertos para quaisquer formações universitárias. Também mais comum que profissionais de sucesso, porém sem educação superior, possam vir a assumir posições profissionais elevadas em organizações. Para se ter uma idéia, acredito que seja possível que inclusive um profissional no Reino Unido receba título de advogado ou engenheiro somente através de trabalho e provas, sem nunca ter cursado universidade! Fato impensável para brasileiros e pessoas de outras culturas de sistema educacional similar.

Uma dica importante nesse tema é: Valorize seu currículo universitário brasileiro. Não tenha medo de explorar as características diferenciais de sua experiência acadêmica e profissional. Seu curso universitário no Brasil é de 5 ou 6 anos? Você já realizou mais de 50 horas semanais somadas entre estágio/pesquisa e aulas? Coloque essas informações no currículo! Valorize-se como profissional. Esse é o lado bom de termos currículos universitários tão extensos no Brasil.

Dicas gerais/finais

– Em qualquer contexto profissional, evite interromper a fala de alguém ou tirar sua atenção. Pedir a atenção de um atendente de bar enquanto ele serve outra pessoa, por exemplo, é uma grave gafe; além disso, se você quer a atenção de alguém que está atendendo outra pessoa em um local como um evento de carreiras, posicione-se ao lado da pessoa e aguarde sua vez. Diferente do brasileiro, o britânico não falará algo como “já lhe atendo”, porém isso não quer dizer que ele não te dará atenção.

– Evite contato corporal, como beijos e abraços. Por mais que sejam aceitos em outros países europeus, beijos no rosto entre contatos profissionais e amigos não-íntimos não são bem-vistos no Reino Unido.

– Não tenha medo de participar de reuniões com professores universitários ou colegas de trabalho, ou confraternizações sócio-profissionais em geral, em locais como pubs. Diferente do nosso país puritano, beber cerveja em tais eventos é aceitável, inclusive em almoços de trabalho, com o consumo dentro do bom-senso.

– Dado a emigração na Europa das últimas décadas, não sinta-se intimidado caso boa parte da mão-de-obra, particularmente de chãos de fábrica ou ambiente como hospitais, seja de imigrantes. Ouvir polonês na empresa onde estagiei era comum, pois mais da metade do chão-de-fábrica tinha origem étnica do Leste Europeu. Imigrantes de forma geral são reconhecidos como trabalhadores exemplares, diferente do que preconceitos tolos possam vir a dizer.

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– Diferente do Brasil, em que refeitórios são exigidos por lei para empresas de médio e pequeno porte, não é comum no Reino Unido que empresas ofereçam serviço de refeitório ou auxílio alimentação. Seu almoço deve sair do salário, e pode ser uma refeição fora da empresa, ou um sanduíche ou marmita trazida de casa.

– Calça jeans no UK não é roupa de trabalho! Mesmo em empresas como de engenharia, calças jeans não são aceitas para o trabalho, somente calças sociais.

Para mais dicas sobre a cultura britânica, não deixe sempre de ficar ligado no blog dos Embaixadores da Rainha. Valeu! 🙂

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