ESR: as muitas facetas da Odontologia

No ESR desse domingo, quem conta sua história é a Helyn Thami, formada em Odontologia pela UFRJ. A Helyn morou um ano em Londres e estudou na Queen Mary University. Como resultado da vivência no UK, ela hoje cursa uma pós aqui no Brasil, faz trabalho voluntário em saúde pública e ajuda outros colegas dentistas da sua ex-universidade a tentarem o CsF também. A Helyn também vai participar do nosso Career Day no Rio de Janeiro, no dia 6 de Outubro. Já fica o gostinho do bate papo com ela! 😉

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Intercâmbios são experiências incríveis, e isso só quem faz sabe. A dificuldade de traduzir para quem ficou o quanto essa experiência é impactante é quase universal.  Entretanto, cada história tem nuances próprias e vieses únicos para cada um de nós. Hoje, eu vou poder compartilhar com vocês um pouquinho do que aconteceu comigo.

Era Agosto de 2012. Eu passava por um período meio conturbado da vida: dúvidas se acumulando na cabeça, desestímulo com relação ao meu curso de graduação (na época, eu cursava o quinto período de Odontologia na UFRJ) e uma vontade enorme de começar tudo de novo, do zero. Nada anormal para uma jovem na casa dos 20, mas bastante angustiante.

A chegada da carta de concessão da bolsa de intercâmbio pelo Ciência sem Fronteiras trouxe ânimo novo e eu decidi mergulhar de cabeça e coração abertos nessa experiência. Malas prontas, passagens na mão, 12 horas de muita ansiedade e quase nenhum sono e, finalmente, desembarquei na terra da Rainha. Tive apenas dois dias livres antes do inicio da semana de recepção e do início das aulas propriamente.

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Uma festa beneficente que fizemos no laboratório para colaborar com o “Outubro Rosa” – aquela campanha de doação contra o câncer de mama. Embora falte muita gente na foto, essa é a melhor que tenho 🙂

Não foram necessários muitos dias dentro da universidade para que eu notasse a grande diferença de perspectivas da profissão entre um país e outro. Aqui no Brasil, infelizmente, a formação é extremamente tecnicista, o que significa dizer que aqui se tem a ideia de que odontologia é uma ciência meramente clínica. É como se a única carreira possível fosse montar um consultório. A universidade em que estudei (a Queen Mary University) promovia, pelo menos uma vez a cada semana, atividades que mostravam um pouco das mil e uma facetas (olha o trocadilho! rs) da minha profissão. Tivemos laboratórios de pesquisa, conversamos com dentistas ocupando altos cargos de gestão do NHS, sendo CEOs de empresas do ramo odontológico; falamos sobre empreendedorismo… e aí um mundo novo se abriu na minha frente. Eu sempre adorei pesquisa e fui engajada em monitorias e iniciações científicas desde a metade do primeiro período da faculdade, mas eu tinha a ideia de que se eu fosse seguir essa carreira, eu teria que acabar dando aula. No fundo, o que acontece no Brasil é isso: quem quer pesquisar e usar a estrutura dos laboratórios da universidade vira professor. Quem nunca teve aquele professor que tem pesquisas absurdas, é conhecido no mundo todo, mas que não sabe (e não gosta) de dar aula? Outra coisa comum por aqui é a hierarquização dos títulos. Um mestre vale mais que um especialista e um doutor vale mais que um mestre. Pós-doutorado é o topo da pirâmide. Um professor doutor com consultório cobra mais caro pelo título que tem, mesmo que ele tenha clinicado muito pouco ao longo da vida. Por aqui, é uma exceção cursar doutorado sem mestrado, enquanto lá é normal: “mestres querem dar aulas, doutores querem ser pesquisadores, especialistas são as maiores autoridades na clínica diária”, minha orientadora dizia. A gente acaba comparando maçã com laranja, já que são titulações com objetivos muito diferentes. “Tá esquisita essa lógica”, eu pensava.

No final das contas, isso me mostrou que o meu desestímulo não era com a profissão e o curso que escolhi, mas sim com o direcionamento da formação que eu estava tendo. Na verdade, dentistas podem atuar em muitas coisas e eu descobri isso no intercâmbio. Às vezes, os alunos se desestimulam com o curso justamente por não se enquadrarem nesse perfil (como eu não me enquadrava) e é muito importante que se tenha a ideia de todos os campos de trabalho que realmente existem dentro de cada profissão. Meu interesse por pesquisa sempre foi enorme e, hoje em dia, eu sinto segurança para trilhar esse caminho. Faculdade é pra expandir, não pra limitar. Certo?

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Não é fácil não: eis o livro que eu tive que ler (em duas semanas) para poder colaborar no projeto de pesquisa.

Ao mesmo tempo em que cursei as disciplinas, fiz estágio em um laboratório de pesquisa de materiais dentários (dentro da própria universidade) e lá participei de dois projetos diferentes, um de autoria própria, que eu já levei delineado daqui, e um novo, colaborando com um aluno de PhD. Ambos foram muito frutíferos, mas o segundo, em particular, rendeu a descoberta de um novo material que pode ter um impacto importante na clínica. No momento, a papelada de patente está correndo e, por isso, não posso dar muito mais detalhes.

Além das aulas e das pesquisas, participei de eventos científicos para apresentar painéis e assistir palestras, tentando ampliar tanto quanto possível tudo de novo que eu estava aprendendo.  Acabei me interessando também pela saúde pública dental – que eu descobri ser extremamente forte na Inglaterra e nos países nórdicos – e, hoje em dia, transmito alguns desses conhecimentos às pessoas através de trabalho voluntário, que faço em escolas públicas e comunidades. O objetivo principal é conscientizar para a importância da saúde bucal na saúde geral e na qualidade de vida. Eu penso ser essa a melhor forma de tentar retribuir um pouquinho tudo que essa experiência me deu.

Saí da Inglaterra com uma carta-convite para o doutorado na mesma universidade e uma simpática (e muito gratificante) carta de recomendação para dar aquela ajuda em qualquer atividade que eu decidisse exercer. Ela foi muito importante para eu conquistar a vaga na pós que curso atualmente. Quando ela acabar, a ideia de voltar a Londres will be back in business, babe 🙂

Por todas as razões que contei aqui, eu já poderia dizer que o intercâmbio FOI a melhor experiência que eu tenho para contar a alguém. Mas, se eu for o mais sincera possível, vou dizer que ele É a melhor experiência. Os frutos do intercâmbio vão além do intercâmbio. Desde que voltei a casa, estou empenhada em ajudar todos os alunos que me procuram para tirar todas as dúvidas sobre o processo, inclusive já fiz contato com a universidade para apresentar diversos desses alunos, na intenção de facilitar esse primeiro contato. Infelizmente, dentro da minha universidade de origem, o CsF priorizou as áreas de exatas e, até a minha ida, nenhum outro aluno da área de saúde havia conseguido uma bolsa. Depois que voltei, consegui, através de muita conversa com a Diretoria da unidade e corpo discente, aumentar muito o interesse na divulgação do programa e o interesse por parte dos alunos em viver essa experiência. Deixou de ser uma vivência só minha. Ainda bem.

Quero finalizar com uma frase que gosto muito e diz que uma mente que se expande jamais volta ao seu tamanho original. É uma verdade que todo intercambista conheceu na pele. Um forte abraço e até a próxima!

Muito obrigada pelo seu relato, Helyn! A gente se vê na próxima terça-feira! 🙂

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