Brexit parte 1: Entendendo a votação

Em fevereiro abordamos possíveis consequências do Brexit, a votação por referendo pela saída do Reino Unido da União Europeia. Nos passados meses houve várias reviravoltas no tema, e o referendo em si ocorreu no final de junho com o voto a favor do Brexit – ocasionando já nessa primeira semana pós-votação uma série de reviravoltas políticas e econômicas. Pelo interesse no tema não só da comunidade intercambista como também pelo público em geral, publicaremos uma série de artigos: O corrente para explicar a votação do Brexit, e seguintes para estimar as consequências da votação.

bre2

(A charge acima do cartunista holandês Tom Janssen faz sátira relacionando Brexit com um clássico quadro de comédia de Monty Python, Ministry of Silly Walks)

  1. Contexto político da votação

Democracia direta, a decisão de políticas por voto popular através de referendos, não é comum no UK. Nos passados 40 anos houve somente três referendos na Grã-Bretanha – na Suíca, por comparação, houve 27 referendos somente nos últimos três anos. O povo britânico também foi recentemente qualificado juntamente com a Letônia como os dois povos europeus que menos retém conhecimento sobre a união europeia. A pergunta é: Por que o primeiro-ministro conservador David Cameron, que não é contrário à UE, ofereceu o referendo de saída da União Europeia a um povo não adepto da democracia direta e que desconhece a própria UE?

A resposta é: Política. Em 2013, para aliviar um crescimento euro-cético (contrário à UE) interno ao partido conservador, e reduzir o avanço do partido nacionalista UKIP, Cameron ofereceu o referendo ao povo britânico (juntamente com propostas de reforma junto à UE) para garantir sua reeleição como primeiro-ministro. O que pode ser compreendido é que Cameron não esperava ganhar uma maioria direta no Parlamento. Pesquisas apontavam para os conservadores, no melhor cenário, um governo de coalisão com os centristas Liberais Democratas – cujos parlamentares possivelmente vetariam o referendo. Porém, com o ganho da maioria dos assentos por parte dos conservadores (pouco acima de 50%) Cameron não teve escolha a não ser manter a promessa do referendo.

  1. Brexit ou não-Brexit?

Há um consenso entre todas as pessoas vivas que já tomaram cargo de primeiro-ministro, 4/5 do gabinete ministerial, 3/4 do parlamento, e os líderes de todos os grandes partidos no parlamento, como também entre os líderes de mais de 100 universidades britânicas, incluindo Stephen Hawking de que o Brexit não é a melhor opção para o UK. Há também consenso entre o Tesouro Nacional e Banco Central britânicos, o FMI, a OECD, o Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social, Oxford Economics e Centre for Economic Performance de que Brexit negativamente afetaria o PIB inglês. Não cabe aqui discorrer os prós e contras de uma decisão que, entre os especialistas, claramente é um pulo no escuro desnecessário e perigoso para o UK em termos econômicos, políticos e sociais, como muito bem traduzido na imagem abaixo:

brexit

  1. As (ingratas) campanhas pró e contra Brexit

“A primeira vítima fatal da guerra é a verdade”, e nesse caso, a verdade também veio nati-morta particularmente à campanha pró-Brexit. Pouco importou ao povo britânico, cego de xenofobia e racismo “de armário” as vozes dos especialistas. Michael Gove, um dos porta-vozes da campanha Brexit resumiu ao falar abertamente “o povo britânico está cansado de ouvir especialistas” em uma entrevista televisiva. Mentiras estampadas em tabloides, na maioria das vezes no tema de imigração, central à campanha Brexit, foram repetidas vezes refutadas por meios legais ou por órgãos de avaliação independentes – manchetes como “A rainha apóia Brexit”, “700 crimes cometidos semanalmente por europeus no UK” e outras relacionadas a terrorismo , e a própria frase de efeito da campanha do Brexit, de que o UK manda 350 milhões de libras por semana para a UE, dinheiro que poderia ir para a saúde, estampada no ônibus oficial de campanha. (Detalhe: demorou-se menos de um par de horas após anunciado o resultado da votação para a campanha do Brexit abandonar a promessa de direcionar 350 milhões de libras por semana para o sistema nacional de saúde.)

bre3.jpg

A campanha Remain (contra o Brexit), com menos sangue nas mãos no quesito de espalhar mentiras, não deixou de pecar em outras frontes. Cameron, que liderou a campanha, usou de seu estilo político de Projeto Medo, anunciando semanalmente nos meses antecedentes ao referendo quais novos terrores o povo britânico iria se sujeitar ao votar por Brexit – desde desvalorização imobiliária até pontos altamente questionáveis como a redução de renda familiar até 2030 (economistas em geral concordam que não é possível prever cenários econômicos com tantos anos de antecedência). O fear mongering (política de medo, expressão sem tradução no português) dos conservadores pró-EU não provou-se eficaz.

Pior ainda na foto ficaram os trabalhistas (partido de esquerda) em relação ao Remain. O partido elegeu para liderança em 2015 Jeremy Corbyn, um político um tanto controverso no estilo à la José Mujica (ex-presidente uruguaio) – populista idoso de políticas esquerdistas e vida modesta. Corbyn, anti-UE em toda sua carreira, engoliu em seco a posição oficial de seu partido de apoiar Remain e fez de forma geral uma performance pífia na campanha: Recusou participar de debates televisivos, fez argumentos dúbios e questionáveis quanto à sua afiliação a causa, sendo “7 em 10” em relação à Europa, e fazendo com que metade dos que votam pelo partido trabalhista (muito mais propensos à serem pró-EU que os conservadores) nem soubessem a posição de seu partido no debate do Brexit. Remain também desempenhou mal em incentivar jovens a irem votar, e em convencer indecisos, com por exemplo o argumento simples de “se você está indeciso vote por Remain: sair da UE é permanente, ao permanecer-se nada impede uma futura saída”, que mal surgiu nos noticiários. Também (opinião pessoal), o argumento de que fazer parte da UE permite que o UK possa no futuro receber um auxílio durante uma época de crise (o país pode muito bem ser vítima de crise financeira ou imobiliária) poderia e não foi utilizado – talvez por uma questão de orgulho nacional.

  1. A decisão e o Reino (Des)Unido

Como já foi amplamente noticiado, em 24 de junho anunciou-se o resultado de uma vitória acirrada, 52% dos votos a favor e 48% contra o Brexit, com um turnout (presença de voto, pois o voto era facultativo) de 72%. De forma geral a Escócia, a Irlanda do Norte, Londres, grandes cidades como Liverpool e Bristol e centros universitários como Cambridge votaram Remain, enquanto o interior inglês e o País de Gales votaram por Brexit. Em termos de faixa etária, 75% de jovens votaram por Remain, com a porcentagem reduzindo quão maior a idade. Dados também apontam que maior a escolaridade maior a tendência anti-Brexit.

Consequências do futuro Brexit serão abordados no próximo artigo, porém um resultado direto das campanhas e do clima político evidenciado antes mesmo da votação é um crescimento de xenofobia e racismo pelo UK. A classe média britânica, afetada nos últimos anos pelas políticas de austeridade e de redução do estado de bem-estar social, encontraram nos imigrantes europeus e não-europeus (uma faixa de 13% da população, percentual similar ao da Alemanha) um bode expiatório para todas as suas mazelas. Isso é evidenciado não somente na relação de que áreas mais pobres do UK foram mais convencidas pelo argumento da imigração e tenderam ao Brexit mas principalmente na reportagem em vídeo do jornalistas John Harris anterior à votação, evidenciando a “política de ódio” associada a imigração, evidenciada pelo comportamento xenofóbico inclusive por britânicos de minorias étnicas, disponível aqui.

Há um álbum público no Facebook específico para casos de crimes relacionados a discriminação observados nos últimos dias no país, relatando casos como europeus, não-europeus e minorias de forma geral sendo assediados em supermercados, gritos de “make Britain white again” pelas ruas, e casos particularmente tristes como “[nome da criança] volte para Romênia” escrito no banheiro feminino de uma pré-escola. A polícia atualmente investiga o caso de ameaças escritas espalhadas em uma cidade de Cambridgeshire contra uma “ralé polonesa”, e outras histórias de terror por todo o país. A situação é tão caótica que a ONG Anistia internacional criou uma campanha para tomar ação contra crimes de ódio no país.

Tudo indicava antes mesmo do resultado, que os líderes políticos terão nos próximos anos uma difícil missão de consolidar uma identidade nacional reduzindo os crimes de ódio e atenuando as tensões entre classes e etnias. Infelizmente, o imigrante que nos próximos anos for ao UK por motivo de estudos ou trabalho provavelmente terá de lidar com preconceito, independente de dificuldades alfandegárias. Para entender mais sobre a questão de se o Brexit irá de fato ocorrer, os impactos atuais no ambiente político incluindo uma possível independência da Escócia, e quais serão as possíveis consequências do Brexit para imigração estudantil/trabalhista, fique ligado nos próximos artigo do tema, a serem publicados nas próximas semanas.

assinatura_Eduardo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s